
A sombra da morte
Enquanto ia me debatendo freneticamente e gritando “Afinal o papá ´Pedro´ é feiticeiro!… O papá ´Pedro´ é feiticeiro!… O papá ´Pedro´ é feiticeiro!…” para chamar a atenção dos presentes para o que realmente estava a acontecer, acabamos, nesse segura-segura (eu estava descontrolado), por adentrar no quarto do meu irmão.
O quarto do meu irmão era minúsculo, baixo e de construção precária como de resto era toda a nossa casa.
Do interior do quarto do meu irmão se conseguia facilmente abarcar parte do quintal e o vai e vem de transeuntes no seu interior. Mas, naquele dia, não vi vivalma a circular no quintal. O quintal parecia-me estranhamente silencioso e soturno.
Sem ter a noção exacta do que estava a fazer, pedi ao meu irmão que colocasse as suas mãos sobre a minha cabeça, mas tão logo ele impôs as mãos sobre a minha cabeça, vi, em lugar dos seus braços e mãos, um braço não humano sobre a minha cabeça.
O braço demoníaco e aterrorizante que vi sobre a minha cabeça, apresentava-se completamente coberto de pelos de cor preta intensa que se confundiam com os de um gorila, e desembocava numa mão monstruosa com dedos pontiagudos, bastante envelhecidos e em forma de garra.
Com a voz embargada pela aterrorizante visão, gritei ao meu irmão que retirasse as suas mãos de cima da minha cabeça.
O que me intriga até hoje, nesta história, é o facto de eu ter conseguido ver o braço e os dedos monstruosos do ser demoníaco fincados sobre a minha cabeça.
Nenhum ser humano tem a capacidade de ver algo em cima de sua cabeça, a não ser através de um espelho ou (suponho que tenha sido o meu caso) se, em teoria, estiver fora do seu próprio corpo, como de resto ouvimos em muitos testemunhos de EQM (experiência de quase-morte), o que não foi o meu caso.
Eu não estava a viver nenhuma experiência de quase-morte, e nem a passar por uma experiência alucinatória. Eu sabia perfeitamente quem eu era, onde estava e quem eram as pessoas que me rodeavam. Ou seja… eu estava lúcido e consciente dos eventos que se desenrolavam à minha volta.
Sabia que aquilo que eu (somente eu) estava a ver, nada tinha a ver com uma eventual distorção da realidade provocada pelo possível efeito alucinógeno da penicilina procaína que o meu pai me aplicara parcialmente, mas da manifestação do Mal que tinha tomado a minha mente, corpo e alma.
A confirmação de que a penicilina procaína nada teve a ver com os eventos que estamos aqui a narrar, veio semanas ou meses depois, mas, por enquanto, não vamos nos ater a estes outros eventos sobrenaturais que durante 12 meses me aterrorizaram, para não fugirmos do tema em foco.
Enquanto tentava em vão lutar pela vida, vi algo que até então julgava ser uma alusão metafórica da morte pelo autor do Livro de Salmos (Salmos 23:4): a sombra da morte. Não a morte propriamente dita porque ela é um estado; o estado em que as pessoas se apresentam depois de o fôlego da vida abandonar os seus corpos. O que eu vi (não em sonhos, mas com os meus próprios olhos) fora a própria sombra da morte.
Os eventos que estou a narrar ocorreram por volta das doze horas e trinta minutos ou treze horas, e num dia de bastante sol, pelo que mesmo sem luz eléctrica havia claridade suficiente no quarto do meu irmão, até à altura em que, de repente, a claridade no quarto do meu irmão começou a ser tomada por uma estranha obscuridade.
No exterior do quarto onde nos encontrávamos o dia estava ensolarado, mas no quarto do meu irmão o negrume da noite começara a instalar-se de forma sobrenatural e maléfica, diante dos meus olhos. Somente dos meus olhos…
E, então, eu a vi. Sim, a temida sombra da morte que lenta e dissimuladamente se esgueirava para o interior do quarto do meu irmão.
Eu via-a se movendo, fria e ameaçadoramente, em minha direcção, parecendo que tinha vida própria. Por breves instantes me pareceu ter descortinado uns lábios e um sorriso zombeteiro naquela forma inconstante e incorpórea, mas podia ser apenas coisa da minha cabeça.
Hoje, eu sei que a alusão da “sombra da morte” em Salmos 23:4 não fora metafórica, ela realmente existe e é visível aos olhos das pessoas que estão prestes a morrer sem a presença de Cristo em suas vidas.
Continua no próximo artigo…
