
A manifestação do abominável malignus
No momento em que gritei “pai, pára!!…”, imediatamente o meu pai parou com a aplicação da injecção de penicilina procaína, e olhou interrogativamente para mim como se perguntando: “o que se passa?!…”.
O que se passava é que no momento em que o meu pai injectou a primeira fracção de penicilina procaína em meu corpo, uma sensação de que eu estava em um corpo que não era o meu, tomou conta de mim. Tive a percepção de que algo de muito grave e perigoso estava a acontecer comigo naquele exacto momento.
Disse ao meu pai que ao contrário do que era expectável, não sentia o medicamento a entrar em meu corpo. Dizer ao meu pai que “não sentia o medicamento a entrar em meu corpo” fora apenas uma forma de explicar o que não conseguia exprimir por palavras, pois, na verdade, não sabia explicar com clareza o que estava a acontecer comigo naquele momento.
E foi então que tudo começou: um ciclo interminável de convulsões vigorosas (convulsões pouco peculiares que mais pareciam derivadas de choques eléctricos, pois os braços saiam da sua posição de repouso vertical e vinham embater furiosamente sobre o meu peito, regressavam para a sua posição inicial e voltavam, vezes sem conta, novamente, a embater descontroladamente sobre o meu peito), secundadas pela percepção interior de estalos e ruídos no interior do meu cérebro.
Na sala havia um velho sofá de cor bege claro onde o meu pai me fez sentar, enquanto mandava o meu irmão pegar um jarro de água.
Sentado no velho sofá, procurava, atónito, tentar em vão entender o que estava a se passar.
O meu irmão retornou com um jarro ou balde cheio d’água, que imediatamente o meu pai despejou sobre a minha cabeça.
Foi então que o inesperado aconteceu.
No exacto momento em que a água que o meu pai derramara sobre a minha cabeça escorria para o chão cimentado da sala em que nos encontrávamos, aos meus olhos hipnotizados (pois mais ninguém via o que eu via) ela se transformou em sangue… sangue jorrando abundante e torrencialmente da minha cabeça, enquanto o barulho de coisas a se desconjuntarem dentro meu cérebro se tornavam cada vez mais audível e assustador.
Lembro-me de perceber mentalmente que alguém me estava a dizer zombeteiramente: “dentro de alguns dias vão te colocar em um caixão, cavarão um buraco, te colocarão dentro dele, te cobrirão com terra e você desaparecerá para sempre”.
Embora não professasse o catolicismo, fiz naquele instante o sinal católico da cruz, ao mesmo tempo que fui tomado por uma súbita e profunda tristeza por saber que tinha um futuro promissor na vida (era jovem, estudante, capitão afecto a um dos órgãos castrenses tutelados, na altura, pela Presidência da República) que, de repente, simplesmente se esfumaria.
Continua no próximo artigo…
